Organizações sociais: atuar via impacto isolado ou impacto coletivo?

Essa é uma discussão relevante que está colocada pelo Collective Impact Forum, uma rede de instituições do terceiro setor, criada em 2013 para estimular a busca do impacto social coletivo. Essa rede é coordenada pela FSG (Foundation Strategy Group), empresa de consultoria sem fins lucrativos, fundada por Michael Porter e Mark Kramer, e que atua segundo quatro ideias centrais: a filantropia catalisadora (que antes eles denominavam por “filantropia estratégica”); o impacto coletivo; os mercados inclusivos; e o valor compartilhado.

A ideia do impacto social coletivo foi inicialmente lançada em 2011, em texto publicado por John Kania e Mark Kramer, em oposição à prática predominante do impacto social isolado. 

Até hoje as organizações sociais têm atuado basicamente de modo individual, por meio de intervenções isoladas. Segundo os autores, essa estratégia funciona muito bem quando se trata de “problemas técnicos”, isto é, problemas bem definidos, com solução conhecida de antemão e em que uma organização sozinha tem competência para a sua implementação no todo. Um exemplo é a necessidade de um treinamento específico para ajudar na inserção no mercado de trabalho.

Nessas  iniciativas de impacto isolado, as organizações sociais atuando em uma mesma área-fim tendem a competir entre si junto aos financiadores. Pois prevalece a lógica de que quem apresenta desempenho melhor, consegue captar mais recursos e, assim, dar mais escala ao seu negócio social. A avaliação de impacto é conduzida de modo individual, e o esforço é por isolar a influência individual do trabalho da organização de outros fatores concorrendo simultaneamente – como, por exemplo, a influência de outras instituições da localidade.

Porém, o que ocorre é que no setor social os problemas são, em sua grande maioria, “adaptativos”, isto é,  complexos, cheio de interdependências, em que a solução não é conhecida de antemão e, mesmo se fosse, nenhuma instituição sozinha teria os recursos e a autoridade para promover a mudança necessária. Um exemplo é a necessidade de apoio e educação integral para crianças em situação de vulnerabilidade.

Daí, segundo os autores, para os problemas sociais e ambientais complexos, as iniciativas de impacto coletivo tendem a ter um potencial de transformação muito maior. Ao invés de uma atuação individualizada, a ideia é que as organizações de diferentes setores [público, privado e terceiro setor] passem a atuar de modo coordenado e integrado, cada uma em sua área de expertise,  com o objetivo de alcançarem juntas a mudança social desejada, de forma duradoura e em grande escala.

Como advertem Kania e Kramer, a implementação dessa estratégia coletiva não é trivial  e, para ser bem sucedida, deve atender a cinco condições básicas:  ter uma agenda em comum (o mesmo entendimento do problema social e de sua solução); ter um sistema informatizado de medição compartilhada (“shared measurement”); executar as atividades de modo complementar de acordo com um plano de ação; manter comunicação contínua, como base para a confiança entre os diferentes atores; ter a presença de uma organização coordenadora. Só que o cumprimento de todas essas condições exige investimentos significativos em termos financeiros e de tempo, para construir laços de confiança entre os atores, formar uma base de conhecimentos e infra-estrutura de suporte.

Nessas iniciativas de impacto coletivo, prevalece a colaboração ao invés da competição. Quer isso dizer que as organizações sociais de uma dada localidade, atuando em uma mesma área-fim, tendem a colaborar entre si para gerar o máximo benefício. E, diferente do que é feito para as iniciativas sociais individuais, a avaliação de impacto é conduzida de modo abrangente (e não isolado), e tem o foco nos resultados de longo prazo da ação conjunta dos diferentes atores. A meu ver, uma abordagem mais consistente para implementar a avaliação de impacto.

Enfim, há prós e contras tanto para as iniciativas de impacto social isolado como para as de impacto coletivo. Porém, se formos adotar as iniciativas de impacto coletivo, para que elas sejam bem sucedidas, há um longo caminho a ser trilhado antes, pois são muitos os cuidados e pré-requisitos a serem obedecidos. Fica aí a reflexão!

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Comentário de Maria Cecília Prates Rodrigues em 5 dezembro 2016 às 9:36

Angela, muito bom saber dessa experiência  de impacto coletivo aqui no Brasil!

Fazer a interação de tantas organizações é mais complicado, custoso e demorado do que um trabalho individual, mas os resultados podem compensar. Seria o caso em que a soma pode vir a ser maior do que as partes - mesmo aqui considerando que cada organização estaria fazendo a sua parte bem feita. Vale a pena tentar!  

Comentário de ANGELA CRISTINA DANNEMANN em 4 dezembro 2016 às 13:38

Uma proposta muito interessante que voce traz a luz, Maria Cecilia! Fundamentando com as experiencias e a teoria formulada pelo Kania e Kramer. Agradeço seu post!

É um caminho possível com muito potencial de desenvolvimento de vínculos reais a partir da necessidade do terrítorio em que atua e estamos começando a tentar isso em Mato Grosso e Maranhão numa ação de co-gestão entre a Fundação Itau Social e o CIEDS. 

Comentário de Maria Cecília Prates Rodrigues em 2 dezembro 2016 às 16:40

Essa ideia do impacto social coletivo [que articula de modo estruturado as organizações dos tres setores em função de um objetivo social comum] é nova e cheia de desafios.Até então, quem tinha a responsabilidade por fazer política social em âmbito territorial era o setor público. Daí que, como toda ideia nova, essa do impacto coletivo suscita apoios, resistências e abordagens do tipo ´vamos com calma pra ver o que funciona e o que não funciona`.  

Comentário de Luiz Alberto Pinheiro do Nascime em 1 dezembro 2016 às 20:27

esta avaliação, sobre o terceiro setor, bem o social que hoje vivemos é escuro e também, sem nenhuma relevancia as entidades em fins lucrativos, na minha análise, falta mais, entendimento social, para com que temos as reais conquistas para que uma Associação, tenha o seu real valor de integrar ao socialismo comunitário, é que precisamos de órgãos nacionais e internacionais, que venham trazer incentivos financeiros, para estas Ongs, porque o que estou vendo, os espaços encontrados são poucos e com muitas exigências, para tomar um investimento social para o desenvolvimento de uma Associação, comunidades , fundação e até mesmo de  uma Oscip, o que poderia ser feito era uma rede de investimentos sociais para ajudar estas Ongs, porque dentro delas há grandes potenciais que estão invisíveis, e que precisam aparecer para a sociedade de nosso Brasil. bem é isto que acho e espero que entendam este comentário, e espero parceiros, para se tornar um social de verdade.

Comentário de Rosa Maria Morceli em 1 dezembro 2016 às 17:40

Olha, eu não posso garantir que seja a mesma linha porque estou participando como observadora.

O CIEDS do RJ, em parceria com a Fundação Itaú Social, esta animando uma proposta de Rede Municipal de Educação Integral na cidade de Várzea Grande, região metropolitana de Cuiabá MT. Os resultados iniciais me parecem bem semelhantes ao que dizes no texto acima.

Comentário de Diego de Freitas Espinoza em 1 dezembro 2016 às 15:26

muito boa essa discussão! muito mesmo, altamente relevante.

depois vou ler com mais calma os textos lincados e procurar mais sobre outras referencias, mas pela postagem tendo a concordar com o que é levantado: a dificuldade de articulação e o potencial que essa articulação possui frente a problemas complexos!
Muito obrigado!

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