Recentemente escrevi um artigo onde eu alertava sobre os potenciais riscos e benefícios da filantropia no Brasil. Um dos riscos é a ampliação do poder dos filantropos em influenciar a realidade social vis-a-vis ao governo e ao cidadão comum.  Uma das vantagens é a filantropia não estar subordinada aos ciclos eleitorais e, assim, poder se comprometer com um horizonte de trabalho de longo prazo.

Fiquei curiosa quando me deparei agora com o artigo (HBR, dez.2016) do Tim Sullivan,  diretor da Harvard Business Review Press, que tinha o título acima – o fardo dos filantropos. Que fardo seria este?

O texto conta o caso de Paul English, que ficou milionário com o seu site de viagens (www.kayak.com ) e decidiu ser filantropo, de modo a poder dar a sua contribuição por um mundo melhor. Após estudar algumas experiências de filantropia, ele verificou, com certo desânimo, ser grande o risco de filantropos bem intencionados mais atrapalharem do que ajudarem, quando decidem apoiar fundações e organizações beneficentes bem estruturadas e “que julgam estar fazendo o trabalho de Deus na erradicação da pobreza”.

Um exemplo citado são os “perigos ocultos” advindos do equilíbrio instável entre as ações de ajuda humanitária internacional e o empreendedorismo local nos países pobres. Na medida em que essas comunidades estão sendo ajudadas com comida, remédios e roupa gratuitos, por outro lado os agricultores e empreendedores locais estão saindo prejudicados pela competição desigual. E ainda pode-se estar criando nesses países a cultura de dependência. “Sem dúvida, os sapatos de graça foram bons por um certo tempo, porém o que eles precisavam era de construir as suas próprias fábricas de sapato”.

O novo milionário concluiu que doar bem o seu dinheiro, com efetividade, era  muito mais difícil e complicado do que fazer a fortuna que ele havia feito.

Mark Zuckerberg (criador do Facebook) e Bill Gates (fundador da Microsoft) criaram as suas próprias fundações e iniciativas filantrópicas. Mas, como os filantropos modernos, não tão grandes feito eles, devem escolher as instituições para fazerem as suas doações?

Para Sullivan, uma coisa é certa. Os filantropos não devem simplesmente doar milhões e esperarem que o mundo melhore. O processo de doar dinheiro deve ser tão disciplinado e planejado como é o processo de ganhar dinheiro. Uma sugestão que ele dá, para orientar na escolha da organização social receptora da doação, é a utilização da metodologia adotada na Robin Wood Foundation, conhecida como “relentless monetization” (ou monetização máxima), que nada mais é do que a análise do custo/benefício.  Qual o projeto social, ou organização social, com o maior potencial de retorno [isto é, de impacto social traduzido em R$] para cada R$ 1,00 que for aplicado? 

A meu ver, a sugestão dessa metodologia do custo/beneficio vai ao encontro da lógica empresarial, bem ao gosto dos filantropos. Porém, considerando a realidade das organizações do terceiro setor, sobretudo no Brasil, ainda não é o momento para pretendermos adotá-la em toda a sua extensão. Podemos buscar adotar, sim, apenas a primeira parte dela - a que se refere ao planejamento da iniciativa social [ entendido como a definição clara dos objetivos de resultado e de processo, dos indicadores, rubricas avaliativas e público-alvo]; a avaliação dos resultados e de processo; e o levantamento dos custos por produto ou por beneficiário. Quanto à segunda parte da metodologia, a que diz respeito à monetização do impacto, a quase totalidade das organizações do terceiro setor no Brasil ainda não está devidamente amadurecida para implementá-la.

Proponho que fiquemos, por enquanto, com o desafio do planejamento e da avaliação bem feitos para balizar os investimentos da filantropia!

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