A "Agenda de Resultados" e a cultura avaliativa no Brasil - impressões incipientes de um gringo

Olá! Queria só noticiar uma discussão que comecei sobre a cultura avaliativa no Brasil e como o setor se situa no âmbito internacional. Gostaria de ouvir as suas opiniões!

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William

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Comentário de William Faulkner em 24 junho 2013 às 12:43

Olá Rogério!

 

Muito obrigado pelos seus comentários. Acho muito interessante e legal que você tenha ressaltado a conexão entre RCTs e a Agenda de Resultados.

 

Minhas pesquisas acadêmicas enfocaram as avaliações que o IFPRI (International Food Policy Research Institute) fez do programa mexicano PROGRESA entre 1997 e 2000. Supostamente essas avaliações constituíram um dos primeiros exemplos de um RCT feito num país "em desenvolvimento" para avaliar um programa social, e ainda são usados como bons exemplos do método, frequentemente elogiados por economistas, o Banco Mundial, o BID, etc., e os centros de pesquisa mais visíveis na área como JPAL e Innovations for Poverty Action.

 

Parece que na verdade a avaliação do PROGRESA foi semi-experimental (sem provas diretas acho que consegui defender esse argumento pelo menos) e, como argumenta Bruno Latour, pode ter sido apenas a verdade que sobreviveu no ambiente político tenso do momento. Depois o projeto se tornou uma das bases em que organizações internacionais se apoiaram para galvanizar a Agenda de Resultados e a sua aplicação no âmbito internacional. Esses movimentos político-econômicos acabaram arrastando consigo o ramo de metafísica mais amigável, ou seja, o positivismo lógico, e promovendo-o num ambiente nacional já propício na época (ainda é, a meu ver). 

 

Qual é o argumento? Brevemente:

(1) Penso nos RCTs como a única forma epistemologicamente legítima de chegar à causalidade/resultados? Não. Mas entendo que tenha tido essa impressão do meu post. Desculpe. Deveria de ter esclarecido. Na verdade, me dá enorme alegria ver que o primeiro comentário aqui levantou esse assunto. Reforça a minha opinião de que os aspetos negativos da Agenda de Resultados não serão facilmente engolidos pela comunidade avaliativa aqui (é um dado pelo menos);

(2) Vejo uma vinculação forte entre a Agenda de Resultados e estudos quantitativos (e especificamente os RCTs)? Sim. Eu sei que é em parte um resultado da minha miopia nesse caso no México, mais acho que foi um dos eventos-chaves que ajudou a escola de epistemologia mais popular entre os economistas dos EUA a vazar pelas fronteiras geográficas e disciplinares, afetando significativamente a avaliação internacional. 

 

Essa justaposição explica minha presença lá no congresso do Big Push Forwards.  

Pode ler os resultados da pesquisa aqui. Recomendo também este paper recente que explora de forma mais aplicável o conceito do impacto na avaliação de programas. 

 

Agora, adoraria saber mais sobre a sua opinião sobre a [não-]integração da Agenda de Resultados à cultura avaliativa do Brasil. Quais são as bases epistemológicas populares aqui? De onde vêm? De quais disciplinas vêm os profissionais da avaliação? Ao final das contas fiz o post para levantar críticas e começar uma discussão aberta, e por isso agradeço de novo seus comentários perspicazes!

Respeitosamente,

William

Comentário de Rogério Silva em 19 junho 2013 às 12:31

William. São bens vindos os olhares sobre a cultura de avaliação no Brasil, e bem vindos os diversos movimentos, a literatura e os profissionais de outras pátrias que sejam capazes de contribuír para o amadurecimento de nossa democracia e para que o Brasil acelere sua capacidade de garantir direitos.

Sua leitura é, neste sentido e a priori, bem vinda. 

Ela, contudo, como você mesmo o diz, parte de uma falha fundamental, que é seu pouco diálogo com atores brasileiros, talvez sua limitada circulação e compreensão do país e, neste sentido, a baixa capacidade que você teve, até aqui, de compreender a cultura de avaliação no Brasil. Quando você aponta ainda esta discrepância entre "cultura de resultados" e "cultura da nação", aí o gap fica ainda maior, e é impossível não fazer críticas ao seu post, ainda que sustentar o convite para que você se aproxime daqui.

Como estes posts não são também o lugar central dos debates, eu tomo apenas um componente das suas afirmações para de novo levantar críticas sobre sua leitura. Você supõe uma relação direta entre "cultura de resultados" e "estudos clínicos aleatorizados" (talvez aos RCT), ou entre "cultura de resultados" e "estudos quantitativos", e no meu entendimento você comete aí um erro epistemológico ao supor ser "experimental" o caminho privilegiado para medir resultados. Sobre isso, e você deve saber, há tremendas divergências entre escolas, dentro das próprias ciências. Ainda que possamos concordar que as práticas de avaliação sejam tributárias do "melhor" pragmatismo americano, reduzir o conceito de resultado à dependência de estudos experimentais (ou quase-experimentais) é uma armadilha da qual eu recomendo fugir.

Termino por lembrar que há atualmente diversos grupos, pesquisadores e instituições, públicas e privadas, estudando, publicando, debatendo e formulando na direção da cultura de avaliação no Brasil. Talvez seu contato com estes grupos possa enriquecer sua leitura, assim como arejar as nossas cabeças por aqui, no diálogo transnacional e transcultural que precisa caracterizar a avaliação, bem como a vida na sociedade contemporânea.

Rogo apenas que seu estranhamento "antropológico" não seja traduzido em violência simbólica.

Atenciosamente,

Rogério Silva

Revista Brasileira de Monitoramento e Avaliação

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