Quarentena da COVID-19 no Brasil: necessidade ou política do excesso contra o desconhecido?...

RESUMO EXPANDIDO (texto completo disponível em https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/sustinere/article/view/...)

O ensaio apresenta uma reflexão acerca de variáveis, aparentemente, não valoradas, na luta contra o coronavírus, sem pretender uma resposta definitiva diante da ausência de dados científicos. A discussão foi realizada a partir de informações fornecidas na Internet por especialistas, às quais adicionaram-se os poucos dados científicos existentes sobre a crise atual, discutindo a relação entre o plano nacional brasileiro contra o COVID 19, as informações da OMS e o Relatório do Imperial College. Partindo dos pressupostos apontados na discussão empreendida pelo ensaio, mostra-se temerária a implantação mecânica da política de contenção da COVID-19 em contextos, cujas realidades geográficas, sociais, culturais e econômicas divirjam sobremaneira das realidades para as quais as estratégias foram pensadas, sem sua devida adaptação, por meio de uma análise contextual da implantação. Ainda que tenhamos como contexto mais amplo a própria realidade mundial, em uma crise, globalmente, interconectada, não podemos negligenciar fatos e evidências de contextos mais locais, sendo esse um papel central da comunidade internacional de avaliadores.

Diante da situação extrema que o mundo está vivendo, tem transbordado na mídia a opinião de especialistas, transformando os veículos midiáticos, talvez, na maior fonte de informações sobre o COVID-19, antes mesmo de sua publicação nos veículos científicos, uma vez que tais veículos costumam ser morosos, em razão da necessidade (legítima) que a Ciência possui de se precaver contra informações truncadas e falaciosas, por meio do peer review. Nesse sentido, temos, ainda, opiniões de leigos, que arrogam a competência para avaliar, tecnicamente, a situação, disseminando informações desencontradas daquelas emitidas por profissionais sérios e comprometidos que, apesar disso, destoam diametralmente entre si sobre a melhor direção a se tomar, em uma controvérsia viva, na qual se insere este ensaio.

Desse modo, tais informações precisam ser filtradas, como se diz, “precisamos separar o joio do trigo”, sob o risco de não conseguirmos distinguir “mitos” de “verdades”, “fantasia” de “realidade”, “pânico” de “precaução” e produzirmos o “efeito manada”, inclusive, transplantando para o contexto social mais amplo, sem a devida relativização, conclusões e resultados preliminares obtidos em contextos mais restritos e específicos, como ambientes laboratoriais controlados. Frente à falta de informações científicas claras, amplas e profundas, a máxima que orientou a estratégia adotada, pelo menos, no Brasil foi a de que é aceitável “errar pelo excesso” e, aparentemente, a de que “os fins justificam os meios” e, nesse viés, se os fins mais imediatos são validados como nobres, qualquer estratégia adotada é válida pra seu alcance, a despeito de suas iatrogenias de longo prazo, e, no futuro, tais estratégias poderão ser retomadas como medida mais viável, ao menor sinal de risco, sem uma avaliação acurada (a história já tem nos apontado essa tendência de comportamento), uma vez que foram legitimadas pela população acuada pela desinformação. Assim, suas consequências distantes no tempo ou mais sutis, como a saúde mental, principalmente, das crianças, estarão diluídas por outros eventos sociais que as camuflarão.

Medidas assim, decorrentes, em grande parte, de uma perspectiva flexneriana da saúde, transportam em suas premissas uma sutil negligência com o fator humano e social, em uma abordagem pouco antropológica de questões, por excelência, humanas, dentro de uma visão “biocêntrico-funcionalista”, que parece ter se hegemonizado pelo mundo, na qual a função orgânica deve ser mantida ou recuperada, a despeito de quaisquer outros fatores ou consequências, sob o discurso de que vidas não se recuperam, mas se esquecendo de que uma vida salva hoje pode estar condenada amanhã por variáveis não consideradas, apropriadamente. Uma abordagem mais adequada poderia ser alcançada caso políticas educativas, prevencionistas e de investimento na Saúde Coletiva fossem adotadas como regra inalienável. O foco necessita ser a pessoa, não a doença, e esta pessoa precisa estar ciente de quais renúncias correspondem à sua escolha, para decidir, conscientemente, o que exige transparência de informações acerca das políticas adotadas. Para tanto, é necessário um planejamento de longo prazo e investimentos sociais na Educação, na Saúde e na Educação em Saúde, para o fortalecimento de sistemas como o SUS, a disseminação de informações fundamentadas, a construção de hábitos saudáveis de higiene pessoal e ambiental e a formação crítica do cidadão, para que atue de forma socialmente responsável, tecnicamente respaldada e politicamente comprometida.

Para finalizar, inferiu-se a necessidade de melhorar informações sobre o contexto brasileiro para primorar também a política de combate ao COVID-19 em território nacional, sem negligenciar nosso compromisso como nação-membro da comunidade internacional, mas indicando a importância de se contextualizar a política de acordo com as nossas próprias necessidades, em nome da eficiência e da economicidade. Sem a pretensão de concluir, importa nos preocuparmos com o saneamento das informações disponíveis, seja na esfera pública geral, seja no âmbito profissional e político dos tomadores de decisão, a partir de métodos científico válidos para um ancoramento da política em evidências contextualizadas na realidade do país. Apenas assim, seremos capazes de superar esta controvérsia na prática, com políticas públicas fundamentadas, efetivas, eficientes e eficazes, o quanto antes, em nome de um bem estar nacional (e global), trazendo para o debate variáveis ainda não consideradas ou consideradas apenas parcialmente e, discretamente, pontuadas neste ensaio à guisa de provocação do debate, pois o remédio não pode se tornar pior que a doença e o comportamento de manada não pode se sobrepor à racionalidade, em busca de salvarmos o maior número possível de vidas, agora e no futuro, onde nós, em um primeiro momento, e nossos filhos e netos, em momentos mais tardios, deveremos lidar com as consequências do que estamos fazendo hoje.

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