Eu conheci na USP um rapaz cuja dissertação de mestrado era sobre pobreza urbana. Sua pesquisa consistia em se vestir como um catador de lixo e se misturar com os catadores de lixo que trabalhavam na universidade. Uma das conclusões de seu trabalho era a invisibilidade da pobreza, ele dizia que colegas de classe e professores de seu convívio diário simplesmente cruzavam com ele durante o trabalho de campo e não o reconheciam, ou quando o reconheciam o ignoravam, aparentando surpresa por vê-lo em tal condição. A obviedade deste achado se reflete na cultura popular, como disse uma vez Joãozinho 30 quem gosta de pobreza é intelectual, mas mesmo intelectuais tendem a virar o rosto quando expostos à pobreza extrema com todos seus detalhes, cheiros, e cores.

Com o "Voices of the Poor" o Banco Mundial tentou dar concretude aos saberes e experiências de indivíduos imersos em situação de pobreza, colaborando para acabar com tal invisibilidade, o que gerou alguns efeitos colaterais. Alguns anos depois, por exemplo, virou modismo na arena de desenvolvimento se dizer que indicadores de desenvolvimento devem mostrar a mudança que queremos ver na vida das pessoas como se um único indicador pudesse traduzir toda uma rica gama de informações referentes à mudanças no status de desenvolvimento de um dado indivíduo. Houve também uma migração de estudos baseados em agregados populacionais para estudos baseados em indivíduos, pois este seriam mais ilustrativos e potencialmente teriam um maior apelo junto a doadores e stakeholders em geral. Neste sentido o "impacto" de uma atividade era estimado com base na vivência de sujeitos da ação, como algo concreto e factual daí a utilização recorrente de ferramentas de análise de conteúdo (e de discurso em menor número) no âmbito de avaliações de resultado e impacto, pelo menos como uma ferramenta complementar.

Claro que como todo método de pesquisa o uso de narrativas tem limitações, principalmente porque gestores e avaliadores obviamente tendem a valorizar narrativas extremas (outliers), ou seja daqueles sujeitos da ação cujo história é representativa de um grande fracasso, ou sucesso. O uso de outliers tem maior potencial educativo, mas por outro lado, em geral leva a estimativas de impacto enviesadas, já que raramente representam a situação da maioria da amostra, ou da população, beneficiada pela iniciativa que está sendo avaliada.

O post a seguir, do site do Banco Mundial, traz uma ótima discussão sobre este tema, sugerindo o uso de narrativas de impacto mediano como uma estimativa menos enviesada em comparação ao enfoque tradicional que destaca a situação de outliers. Trata-se de mais um exemplo da integração de métodos e da superação do apartheid metodológico que ainda persiste entre adeptos de métodos qualitativos e quantitativos.

E vocês, o que acham disso?

Impact as Narrative: Guest post by Bruce Wydick

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