O que a perspectiva antropológica tem a dizer sobre a avaliação de projetos sociais apoiados pela cooperação internacional?

Colegas,

Envio em anexo o ótimo artigo das autoras Maria Lúcia de Macedo Cardoso e Delaine Costa. Eu, particularmente, gostei muito do artigo em geral e, especialmente, do diagnóstico feito sobre os problemas que afligem a realização de avaliações, e o uso de instrumentos de gestão próprios da cooperação internacional. Além disso, o artigo promove uma discussão contemporânea sobre o uso de instrumentos de M&A a partir de uma lógica antropológica.

As autoras destacam como instrumentos de M&A, por exemplo o Marco Lógico, se tornaram instrumentos de dominação de um poder financeiro-técnico-burocrático que muitas vezes atrapalha a promoção do desenvolvimento sustentável, da igualdade de renda, e da equidade de gênero, raça, e etnia.

Como as autoras nos relembram, antropólogos tem trabalhado intensamente em atividades avaliatórias junto à populações étnicas e tradicionais, urbanas e rurais, tendo esta disciplina, portanto, um acúmulo de conhecimento de várias décadas no campo avaliatório.

No meu entendimento a definição do local (ou do contexto) como o elemento fundante de qualquer tipo de atividade de monitoramento e avaliação nos remete ao conceito de complexidade. A solução básica que avaliadoras e avaliadores têm desenolvido para lidar com a complexidade tem sido a triangulação de evidências qualitativas e quantitativas. Cardoso e Costa citam, de forma mais ampla, a triangulação de métodos. De qualquer forma, a partir do nível macro dos métodos para o nível micro das evidências, triangular têm sido a solução.

Compartilho o entendimento das autoras sobre os lugares e papéis da cooperação técnica  internacional, vou mais além, temos que enxergar a cooperação também uma indústria, que tem claros interesses econômicos e financeiros, e como uma atriz política de relevância em âmbito mundial, pois trata-se de uma parte interessada, com poder e alcance globais, assim como, de modo difuso, com posições políticas e ideológicas teoricamente claras.

O marco lógico é uma abstração, um instrumento de gestão cuja própria definição ainda encontra-se em construção. Como as autoras bem notaram, cada instituição tem seu próprio conjunto de entendimentos sobre a significância de atividades de M&E, incluindo questões conceituais e de formatação.

O problema a meu ver não é a demanda por um marco lógico no início do projeto, visto que, fundamentalmente, a questão colocada por este instrumento é: o projeto é lógico do ponto de vista dos recursos, atividades, resultados e impactos? Trata-se de pergunta necessária, pois por incrível que pareça, nem sempre a racionalidade norteia o processo de decisão de iniciativas de cooperação internacional (ou das políticas públicas). Também não se trata de uma novidade, Weiss já tratava do que ela chamava de framework de programa na década de 70, mas como as autoras notaram, marco lógico é, hoje em dia, uma das “buzz words” mais utilizadas por profissionais de monitoramento e avaliação.

O problema identificado pelas autoras, a meu ver, é que ferramentas de gestão são impostas como instrumentos de controle ex-ante. Neste caso o Marco Lógico engessa a implementação, monitoramento, e avaliação de iniciativas de cooperação internacional.

Pior, muitas vezes, a própria lógica do Marco Lógico é falha, e o mesmo se constitui como uma lista complexa e longa de desejos, geralmente de difícil obtenção. Este formato de camisa-de-força acaba por resultar em projetos mal implementados e frustração compartilhada entre os sujeitos e sujeitas da ação, agentes implementadores, e órgãos de financiamento.

A macro solução apontada pelas autoras, em suma, é reconhecer que a avaliação e o monitoramento são atividades que pode ser realizadas por profissionais de todas as matizes, e neste caso instrumentos qualitativos possuem um valor intrínseco. Como notado pelas autoras o desenvolvimento de breve etnografias a partir de uma visão antropológica, em estudos quantitativos, é de grande importância e utilidade, ainda mais quando buscamos responder a questão sobre o que mudou na vidas daquelas pessoas que foram beneficiadas pela cooperação técnica internacional.

História é outra disciplina pouco utilizada em avaliações que mereceria mais destaque. O uso de ferramentas de análise histórica nos ajuda a responder a questão sobre como e por que algumas iniciativas são bem sucedidas quando tantas outras falham. Neste caso o foco da avaliação é a aprendizagem, uma abordagem que nem sempre aparece de forma clara em avaliações como as citadas pelas autoras, impostas por organismos internacionais e com exagerado foco supostamente quantitativo, cujos maiores sintoma são: o super-dimensionamento da importância e uso de indicadores numéricos de forma isolada, e a mensuração de resultados a partir da contagem da população beneficiária (head counting, ou contando cabecinhas).

É comum ouvir hoje em dia que o indicador (no singular) tem que mostrar a mudança que o projeto quer atingir. Por conceito trata-se de uma tarefa impossível, a aferição de causalidade entre duas variáveis (um projeto e um problema de desenvolvimento, por exemplo) só se faz por meio da análise conjunta de pelo menos dois indicadores, o que mede o tratamento, e o que mede o efeito.

Geralmente é necessário controlar para várias outras variáveis, dessa forma querer traduzir mudanças de desenvolvimento que ocorreram em um dado local com base em um único indicador é uma tarefa de impossível consecução, até porque neste caso o contexto é deixado de lado.

Além da solução proposta pelas autoras, de um ponto de vista mais teórico conceitual, tenho visto o surgimento de sistemas de M&A mais abragentes, de caráter compreensivo, cuja combinação de elementos teóricos e ferramentas práticas facilita a produção de Marcos Lógicos mais úteis e acessíveis. No médio prazo acredito que ferramentas como o Marco Lógico serão refinadas e melhor utlizadas já que cresce a importância de avaliações baseadas em design. Nestes casos acredito que também haverá uma maior integração de métodos qualitativos e quantitativos, já que como proposto por King, Keohane, and Verba (KKV) no começo da década de 90, métodos qualitativos e quantitativos compartilham da mesma lógica em termos de inferência causal.

Outros caminhos também são possíveis, a emergência de sistemas de Monitoramento de Populações Vulneráveis em Tempo Real é um bom exemplo de instrumento de gestão melhor adaptado a contextos de complexidade. Trata-se de ferramenta que não somente aproxima profissionais da avaliações e monitoramento, gestores, e sujeitos e sujeitas da ação, mas também se aproveita das facilidades das ferramentas de informação e comunição, tendo um caráter dinâmico, participativo, democrático e custo-efetivo. Por fim, cresce em importância o uso de designs naturais em estudos quantitativos, um grande avanço dada a presumida relevância de estudos experimentais.

E vocês, o que acham?

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Luis, obrigado pela indicação do texto e suas excelentes considerações.

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